[HQview] Will Eisner – Nova York: A Vida na Grande Cidade

January 15th, 2010 | por Vlad 'Focus'

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NEW YORK CAPA H.inddLançado pelo selo Quadrinhos na Cia., da Companhia das Letras, “Nova York: A Vida na Cidade Grande”, reúne quatro graphic novels escritos e desenhados pelo mestre Will Eisner entre os anos de 1981 e 1992. São eles: “Nova York: A Grande Cidade”, “O Edifício”, “Caderno de Tipos Urbanos” e “Pessoas Invisíveis”. Vamos à sinopse:

Na estreia do selo Quadrinhos na Cia., o grande mestre do gênero não podia ficar de fora: nas quatro graphic novels reunidas neste livro, escritas nos anos 80 e 90, Will Eisner traça um retrato genuíno, ao mesmo tempo brutal e profundamente humano, da vida na cidade grande. Protagonizadas por personagens singulares, essas pequenas histórias registram momentos às vezes irônicos, às vezes trágicos, da vida dos habitantes da metrópole, revelando muito mais do que “um acúmulo de grandes edifícios, grandes populações e grandes áreas”.
Nova York: A grande cidade e Caderno de tipos urbanos são compostos de vinhetas que registram, a partir do cenário da cidade, aspectos do dia a dia de seus habitantes. Esses breves vislumbres iluminam com delicadeza desde as situações mais cotidianas até as reviravoltas mais trágicas. O olhar agudo que se revela nas vinhetas ganha em O edifício e Pessoas invisíveis aspecto mais sombrio. Nessas histórias, que são sobretudo biografias de personagens solitários e esquecidos, Eisner põe em xeque o isolamento e a indiferença impostos pela metrópole.
Verdadeira obra-prima dos quadrinhos, Nova York é um registro impressionante não só da sensibilidade de seu autor mas da vida que se esconde por trás de toda grande cidade.
Considerado um dos criadores do quadrinho moderno, Will Eisner (1917-2005) foi um dos mais importantes artistas do século XX. Pai do herói Spirit, Eisner influenciou gerações de quadrinistas no mundo todo. Dele, a Companhia das Letras publicou A baleia branca; O complô; Fagin, o judeu; A princesa e o sapo; Sundiata, o leão do Mali e O último cavaleiro andante.

Will Eisner é um gênio da narrativa gráfica! Suas graphic novels são uma aula de como utilizar a linguagem dos quadrinhos de maneira criativa e ousada. A expressividade de seus personagens é tão grande que ele não precisa de texto pra contar uma história. De fato, muitas das histórias presentes nessa coletânea não possuem balões de fala nem recordatários. A maneira como ele trata os quadros é impressionante, raramente ele se utiliza de linhas para delimitar os quadros, e no entanto seus quadros são perfeitamente compreensíveis. Sua maestria é tão grande que ele consegue fazer o leitor experimentar sensações impossíveis de serem representadas em quadrinhos, como cheiros, sons e tonalidades de voz.

A primeira graphic novel do livro, “Nova York: A Grande Cidade”, é uma reunião de pequenos contos sobre a vida na cidade grande. Coisas que, apesar de ser ambientado em Nova York, pode ser visto em qualquer cidade grande, eu mesmo consegui identificar quase todas as situações na minha cidade. Degraus de edifícios, metrôs, “tesouros” perdidos no respiradouro do metrô, lixeiras, sons da rua, janelas, paredes e quarteirões tornam-se cenários para Eisner nos mostrar do que realmente são feitas as cidades: pessoas. Pessoas dos mais diversos tipos e estilos, e como essas pessoas se relacionam com a cidade e com cada um desses cenários.

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A segunda graphic novel, “O Edifício”, mostra a importância que os edifícios tem na cidade, e como a vida se desenvolve ao redor deles. Aqui ele nos mostra um edifício que foi demolido para a construção de outro mais moderno. Um fato tão banal, que vemos acontecer a todo o momento nas cidades, e para o qual não damos valor nenhum, mas que tem um significado gigantesco para as pessoas que se relacionaram com ele. Vemos aqui a vida de quatro pessoas que tiveram sua vida afetada pelo edifício, e como ela foi mudada com a demolição dele. São quatro histórias tristes, mas de um significado absurdo.

Nas palavras do livro: “Agora sei que estas estruturas, incrustadas de riso e machadas de lágrimas, são mais do que edificações sem vida. Não é possível que, tendo feito parte da vida, eles não absorvam de alguma forma a radiação proveniente da interação humana.”

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Em “Caderno de Tipos Urbanos”, terceira graphic novel do livro, Eisner faz, como ele mesmo chama, um “estudo arqueológico” dos tipos urbanos. Ele novamente desenvolve uma série de pequenos contos enfocando comportamentos tão comuns que muitas vezes não os percebemos, mas que ao ler somos imediatamente lembrados de pessoas que conhecemos ou situações que já vivemos. Os tipos aqui apresentados são divididos em quatro fatores fundamentais das cidades: tempo, cheiro, ritmo e espaço. Especialmente no aspecto “cheiro” temos uma aula de desenho, pois o olfato é um sentido que não temos nos quadrinhos, então ele tem que ser representado graficamente. E Eisner consegue fazer isso de maneira genial, como poucos desenhistas conseguem.

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A última graphic novel, “Pessoas Invisíveis”, traz três histórias de pessoas que, propositalmente ou não, são praticamente invisíveis diante da multidão de pessoas da cidade. Em “Santuário”, um homem solteiro e sem família que sempre preferiu passar despercebido pela vida tenta provar sua própria existência ao ser dado como morto. Já em “O Poder”, temos uma rara experimentação de Will Eisner pela paranormalidade, onde um homem que tem o poder de curar pessoas tenta ganhar a vida honestamente, mas é constantemente tachado de charlatão. Por último, em “Combate Mortal”, uma mulher de quarenta anos que dedicou sua vida inteira a cuidar do pai doente se vê repentinamente liberta de seu fardo com a morte do pai, e passa a procurar um significado para sua vida em outro homem “invisível”, que passa por uma situação semelhante a dela. São três histórias tocantes, que nos mostram que realmente não temos a menor noção da vida das pessoas por quem passamos diariamente na cidade.

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A edição da Quadrinhos na Cia é muito bem feita, possui uma introdução escrita por Neil Gaiman e outra pelo editor original Denis Kitchen. Cada graphic novel é precedida por um texto introdutório do próprio Eisner e, ao final, temos páginas não utilizadas nas histórias e um pequeno texto que explica um pouco sobre o autor. Enfim, uma edição obrigatória para quem trabalha ou planeja trabalhar com quadrinhos e extremamente recomendada para aqueles que querem um pouco mais do que pessoas de colante se esmurrando.

Nota: 10,0

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