June 1st, 2009 | By Altemar Gavião
Snow
town é uma cidade onde o sol não brilha durante o dia, mas na lua cheia os loucos saem para brincar. Um lugar castigado pelo crime e a impunidade, em que a única delegacia conta com apenas três detetives e meio para proteger a população de todos os degenerados que se escondem pelos becos. Qualquer pessoa com um minimo de sanidade fugiria de Snowtown na primeira oportunidade que tivesse, e talvez já tenham feito isso. Nessa cidade existe um lobo em cada esquina esperando para te pegar e não tem ninguém para lhe proteger.
Mas isso mudou quando Rich atravessou a ponte.

A idéia surgiu por causa de Alan Moore, assim como muita coisa. Mas vamos voltar um pouco mais para entendermos o contexto.
A muito tempo, em um lugar distante chamado Estados Unidos, que naquela época ficava ainda mais longe, porque não existia internet, um garotinho entrou em uma lojinha de conveniência com sessenta centavos no bolso e saiu de lá com uma revista em quadrinhos do Batman. Aquela história o marcou tanto que quando ele cresceu escreveu sua própria revista do Batman que se chama The Dark Knight´s Returns, ou apenas O Cavaleiro das Trevas. Claro que nem todo mundo que lia revistas em quadrinhos levou a coisa tão a serio quanto Frank Miller, mas com certeza elas
marcaram a vida de muitas crianças. Alan Moore adorava isso nas HQs, você poderia entrar em uma lojinha com alguns centavos no bolso e sair com aquilo que ele chama de “uma verdadeira fatia de cultura”. Ele disse isso em uma entrevista para um fanzine, que por sua vez foi lido por um cidadão chamado Warren Ellis.
Ellis vivia em um mundo muito diferente quando leu essa entrevista. Os quadrinhos eram mais capitalizados, produzidos industrialmente com centenas de títulos por mês, por US$ 2,99. Então ele pensou em fazer alguma coisa a respeito. Daí surgiu a idéia escrever um novo formato de revista, menor mas com um estilo narrativo que permitiria colocar muito conteúdo em poucas paginas sem perder qualidade. Ai ele comentou o assunto em sua lista de discussão na net, perguntando quem toparia entrar com ele no projeto.
Ben Templesmith respondeu: “Diabos, eu faço… Não tem nenhuma porcaria de Vampiro nisso, não é?”
O resultado foi Fell, uma série mensal da Image, onde cada edição tinha 16 paginas ao custo R$1,99, e cada edição contava uma história completa que podia ser lida independente das que viessem antes, ou depois. Feita no estilo inglês de nove quadrinhos por pagina, o mesmo que foi usado em Watchmen. E contava com o roteiro afiado de Warren Ellis (Planetary, The Authority, Hellblazer) e a arte inquietante e Ben Templesmith (30 Dias de Noite, Crimes Macabros). Sucesso instantâneo, a série teve vários números esgotados e reimpressos.
Rich é um detetive recém transferido para Snowtown vindo do outro lado da ponte. Ao chegar ele encontra uma cidade totalmente tomada pelo crime. Com uma única delegacia sem quase qualquer recurso e um delegado meio louco que chora o tempo todo enquanto está sozinho. Ao ler a descrição de Snowtonw, qualquer leitor de quadrinhos desavisado vai logo dizer: “Sin City”, mas não. Sin City é uma cidade regida pela fúria e pela luxuria, enquanto Snowtown é uma cidade de pessimismo e loucura, com um clima mais parecido com Silent Hill.
Rich nunca disse o real motivo de ter se transferido, mas deixou claro que não pode voltar. A cada edição ele investiga um crime mais perturbador do que o outro, principalmente por sua proximidade com realidade. Ellis afirma que baseia cada uma das edições de Fell em crimes reais que ele lê nos jornais. O resultado são historias de suspense de causar medo até no editor do Diario de Pernambuco*.
Os personagens de Ellis, tão humanos e cheios de limitações, são o que dão o tom realista e envolvente da obra. Rich, apesar de ser um super detetive, não consegue cuidar de uma cidade inteira sozinho. E algumas vezes ele é tão bom no trabalho que isso compromete seu objetivo. Como em um caso em que ele tenta levar um assassino para a cadeira elétrica, mas acabada, sem querer, dando ao advogado argumentos para a defesa.
Ao ler uma única edição você se sente imediatamente imerso no clima de Snowtown, com suas características recorrentes. A mais chamativa delas é a Marca de Snowtown, um S cortado por um X, que aparece em pixações por toda parte da cidade. A origem da marca não é explicada, mas a população acredita que ela possui poderes mágicos e a usam como amuleto de proteção. E logo na segunda edição, Rich descobre que, se quiser sobreviver aqui, vai precisar de toda proteção que puder arranjar.
E para temperar uma boa historia de suspense por que não colocar algumas doses humor negro? Em todas as edições Rich encontra, em algum momento com uma mulher velha vestida de freira que anda pela cidade fazendo todo tipo de bizarrice. Temos também o delegado maluco que quer aprender bruxaria para combater o crime, com uma secretária, que ficou seriamente perturbada depois do fim de um relacionamento e termina toda conversa falando de como ela não é valorizada apesar de ser tão boa na cama, e o legista que insiste em comer enquanto faz seu trabalho.
Para concluir, Fell é uma ótima série, que todo fan de HQs precisa conhecer. E a melhor parte é que ela já foi lançada no Brasil em um encadernado pela Landscape. E pode ser facilmente encontrada em livrarias, comicshops e pela internet. Infelizmente a versão brasileira não é tão barata e acessível quanto a original, mas com certeza vale cada centavo.
Momento do desabafo : Pessoal, nós fizemos dois podcasts e uma matéria falando do quão ruim são as histórias do Wolverine, e mesmo assim, compramos religiosamente, todos os meses, revistas de R$ 7,50 sabendo que são ruins. Então criem um pouco de vergonha na cara e comprem Fell! Fim do momento de desabafo.
Se estão curiosos, confiram a primeira edição em PDF no site da editora.

*O jornal é famoso no nordeste pela grande quantidade de crimes violentos por pagina.